De bem com a Vida

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Relato do meu parto em Calgary, Canadá

Oioi people!

Hoje, finalmente, eu vou conseguir relatar o meu parto aqui no Canadá. Espero que vocês gostem.

Primeiro de tudo, eu queria dizer que a saúde pública canadense, no meu caso, não deixou à desejar, de maneira nenhuma.

Segundo: A Beatrice estava prevista pra nascer no dia 17 de Julho de 2017. Com 30 semanas de gravidez eu fui diagnosticada com diabetes gestacional - não era todo mundo que sabia e foi uma escolha minha e do meu marido não contar pra todo mundo, tendo em vista que já não é fácil e nós não queríamos que ninguém ficasse preocupado ou fazendo cobranças do tipo: "tu pode comer isso?"ou "tu vai comer isso", ou aqueles simples conselhos que irritam qualquer mulher grávida e que todo mundo faz: "tu precisa te cuidar agora né?". E eu não sei disso né?

Terceiro: Com 34 semanas minha pressão subiu e eu tive pré-eclâmpsia - o grande vilão do final da gravidez.

Dito tudo isso, vamos lá!

Conversei com a minha médica e ela decidiu que iríamos induzir o parto normal com 37 semanas em razão da pré-eclâmpsia.

Com 36 semanas tivemos uma consulta e marcamos a indução para semana seguinte - eles marcam um dia e hospital te liga naquele dia dentro de 24h - pode ser a qualquer momento do dia ou da noite, quando tiver tudo disponível pra ti eles te chamam e começa o processo todo.

Nesse dia, 21 de Junho, às 11h da manhã, a minha pressão tava alterada e a médica disse pra eu ir até o hospital onde a Beatrice iria nascer e checasse melhor a pressão.

Decidi ir almoçar primeiro e decidi também que queria passar em casa pra pegar as bolsas da maternidade.

Um adendo para essa parte aqui: Tu não precisa levar nada em especial pra maternidade. Aqui não tem aquela frescura toda de roupa pro bebê pra cada dia, camisola pra mamãe nem nada. Eu levei apenas calcinhas e a roupa que eu iria ir embora, um chinelo e produtos de higiene.

Pra Beatrice, só a roupinha que sair da maternidade, fraldas, mantinhas - o bebê fica o tempo todo de fraldinha, enrolado num swaddle e manta quentinha.

Então: chegamos lá as 15h e eles já estavam me esperando.É assim que funciona: eles têm um sistema totalmente interdisciplinar e todo mundo se entende. A minha médica não seria a médica que faria meu parto, ela estaria de férias no dia da minha indução, então quem faz é o plantonista - é sempre assim aqui, esquece a ideia do teu médico realizar teu parto.

Fui para triagem pra monitorar o coração da Beatrice e a pressão, respondi um milhão de perguntas sobre todo meu histórico médico. Eu não tinha absolutamente nada de dilatação. Às 18h vieram no meu quarto dois médicos da equipe da minha médica conversar sobre indução do parto.

**Eles me informaram que teríamos que fazer a indução naquele momento, pois eu estava evoluindo muito rápido pra uma eclâmpsia - meus exames vieram com alterações no fígado e isso era preocupante.

Conversei com o Fernando e mandei uma mensagem pra Nanda, minha doula pedindo pra ela ir pra lá.

Eu tava feliz que tava chegando a hora! Última foto com o barrigão!

Foi decidido que usaríamos a técnica do balão pra indução do parto - catéter de Foley. Eles inserem um balão dentro de ti para começar a dilatar em até 4cm, após esses 4cm o balão cai e eles estouram a bolsa e começam com a ocitocina. O balão leva de 10h a 48h pra fazer efeito. É perigoso, tem chance de infecção por estar tudo "aberto" lá e pode acabar em uma cesariana.

Às 19h em ponto, entraram no meu quarto pra fazer o procedimento. Dói muito pra colocar esse negócio meu deus. Mas eu fui forte e aguentei no osso.

A Nanda chegou em seguida e as 20:30 eu comecei a ter as primeiras contrações. Eu sofri muito com as primeiras, por não saber como fazer (mal sabia o que estava por vir). A Nanda foi essencial pra me ajudar a relaxar e internalizar as contrações.

Às 23h me colocaram em um quarto semi-privativo que é totalmente de graça - se tu quiser um privado, custa $180 a diária, e já que temos o serviço público, decidimos usá-lo até porque não sabíamos quanto tempo iríamos ficar ali.

Como eu não estava em trabalho de parto ativo, não deixaram ninguém ficar comigo no quarto aquela noite porque tinha outra grávida no quarto. Eu já estava morrendo de dor e isso me deixou bem triste.

Decidi então que que iria levantar da cama e ir até a cafeteria encontrar o Fernando e a Nanda, que não arredaram o pé de lá. Naquela madrugada conversei com a minha irmã e fiquei no facetime mais de uma hora com a minha mãe, andando de um lado pro outro no intervalo das contrações.

Às 6h a dor simplesmente sumiu. Não sentia mais nada e fiquei triste achando que não tava funcionando. Resolvi voltar pro quarto e dormir um pouco, porque eu tava exausta.

Às 7h em ponto, senti o balão saindo! Choreeeeeei de felicidade! 4cm de dilatação! Liguei pro Fernando, mas ele só poderia subir as 11h da manhã pra me encontrar. Eu chamei a enfermeira e contei, ganhei um abraço e uma frase amiga de incentivo: "vai começar mamãe, boa sorte".

Agora era hora de esperar minha transferência pra sala de parto, que não demoraria pra sair segundo eles. Aproveitei pra dormir e acordei com o Fernando já no quarto sentado comigo. A Nanda tinha ido pra casa tomar banho e se organizar pro que tava por vir.

As dores recomeçaram mais fortes e cada uma era mais dolorida que a outra.

Às 11:00 me levaram pra sala de parto. Fui caminhando com calma. O quarto era muito bonito, uma cama MUITO mais confortável, poltrona, bola, barra, banheiro e toda uma UTI instalada ao meu lado pra esperar a minha bebê e ela não sair de perto de mim em nenhum momento.**

Às 11:30, vieram conversar comigo e me explicar como iria acontecer tudo e já estouraram a minha bolsa. Super fácil, super rápido, completamente indolor. Fiquei por uma meia hora deitada na cama, esperando até poder me levantar com calma e ir ao banheiro.

Eu já tava com acesso na mão e com monitor portátil pra checar o coração da Beatrice.

Às 12:00 começou a ocitocina. Quase que instantaneamente começaram as contrações mais fortes. A cada vez eram mais fortes. A ocitocina tem essa característica. A dose era mais forte a cada vez que descia no acesso.

Levantei, tentamos a bola por um tempo durante as contrações, com massagem, compressas, conversas... Eu só tinha vontade de me deitar porque eu tava exausta. A Nanda ficava me dizendo que eu tinha que levantar, andar, tentar, pra poder dilatar mais. Queria me levar pro chuveiro, fazer massagem lá. Mas eu não sei o que me deu, eu simplesmente não conseguia, eu só queria deitar.

Exatamente o contrário de tudo que conversamos na sexta-feira anterior montando o meu plano de parto.

E todo mundo respeitou a minha decisão.

Eu decidi que não queria anestesia ou remédios pra dor de nenhum tipo, pra que não interferisse no meu parto normal. Quando a gente toma anestesia - peridural ou Epidural em inglês, as chances de cesariana são maiores (não me pergunte porque, mas foi o que me explicaram no curso de maternidade aqui) e como eu já tinha o histórico de diabetes e pressão alta, não queria dar chance para o azar né.

Se eu tivesse parindo no Brasil, eles já teriam agendado uma cesariana e pronto. Aqui no Canadá, eles tentam sempre o parto natural vaginal primeiro, tu só vai pra uma cesárea por necessidade, afinal de contas é uma cirurgia e a gente dá a luz naturalmente há milhares de anos.

Eu não podia comer nada, a tarde demorou muito pra passar, eu não aguentava mais de dor. Era algo que me rasgava por dentro.

Eu aguentei firme até as 18h com contrações insuportáveis. Até que não deu mais e pedi a anestesia.

Informamos a enfermeira e o anestesista veio super rápido.

A agulha não doeu como dizem. Senti uma pressão forte e uma leve tontura... e só. O insuportável mesmo ficou por conta das duas contrações que eu tive no meio do processo sem poder me mexer.

O alívio que a anestesia dá é incrível.

Eu sentia as pernas, eu consegui levantar pra ir fazer xixi sozinha, andei pelo quarto e descansei. Eu sentia todas as contrações, mas elas não doíam mais. Era como se fossem contrações de treinamento só que mais fortes.

Fiquei tranquila até as 22:20h da noite. Dormi, relaxei, contei história, ri bastante. Pronto, começou tudo de novo só que mil vezes mais dolorido. Pedi mais anestesia.

Durante esse tempo, a residente veio várias vezes checar dilatação porque eu autorizei e não evoluía muito bem, parou em quase 7cm e era isso.

Passou da meia noite, minha filha não tinha nascido no dia 22 e eu já tava por lá há mais de 24 horas. Eu tava exausta.

Os batimentos da Beatrice começaram a cair e a minha enfermeira (aqui uma enfermeira "cuida" de dois trabalhos de parto por vez e naquele momento só tinha a dona Mariana aqui, então tive praticamente exclusividade) vinha a toda hora checar tudo.

Ela me disse que poderíamos usar um outro monitor fetal pra checar o coração. Ela me disse que muitos partos acabavam em cesárea porque o monitor externo não era tão preciso quanto um interno, então olhando pelo lado externo o bebê não tava bem, quando as vezes tava tudo certo, mas em razão da contração ser tão forte, ele não pega direito o coração do bebê.

Ela já havia me oferecido o monitor interno logo que estouraram a bolsa e eu fiquei com medo de machucar a Beatrice - eles colocam um micro monitor fetal na pontinha de um fio que é inserida dentro de ti e eles cravam esse mini monitor no couro cabeludo do bebê, na primeira camada da pele (sim, chega até lá). A diferença é que com esse monitor tu consegue andar sem ter aquela coisa pendurada na tua barriga e o batimento cardíaco é preciso, não tem meio termo.

Então acabei me rendendo por medo de acabar em uma cesárea desnecessária. E não é que os batimentos da Beatrice estavam maravilhosamente bons? 154bpm!

Às 1:42h da madrugada, como um passe de mágica, simplesmente do nada, no meio de uma conversa com a Nanda, eu senti o bebê ESCORREGAR! É exatamente essa sensação. Foi incrível.

Eu gritei no meio da conversa e disse pra Nanda: "Eu acho que ela vai nascer, ela escorregou dentro de mim!"

A Nanda chamou a enfermeira que veio bem rápido e pediu autorização pra fazer um exame de toque: "Baby's head!" ela gritou. Sim, 10cm de dilatação e a Beatrice ja tava ali, mostrando que tava vindo ao mundo, cabeluda e loirinha- dava pra ver os cabelos dela já! haha

A enfermeira saiu pra bipar os médicos e já puxou do corredor um carrinho gigante cheio de instrumentos e começou a montar ali mesmo todo os aparatos que a médica precisaria. A Nanda pediu pra colocar uma barra na minha cama, pra que eu pudesse segurar um lençol ali e fazer força.

Colocamos a barra, amarramos o lençol e eu já tava ali pronta, SENTINDO ABSOLUTAMENTE TUDO, TODAS AS CONTRAÇÕES, CADA NERVO DO MEU CORPO, CADA PARTE. A médica disse que eu tive uma descarga de adrenalina tão grande que cortou o efeito da anestesia e meu corpo tava pronto pra sentir tudo.

Às 2h da manhã em ponto eu comecei a empurrar, o famoso PUSH e eu não parava mais. A cada contração eu tinha mais força, a cada contração eu contava até 10 enquanto empurrava segurando a respiração.

A cada push eu sentia ela mais perto de onde ela deveria nascer, a cada push doía mais e a vontade de empurrar era incontrolável. Eu tinha vontade de empurrar o tempo todo, mas o ideal é só na hora que a contração vem, porque daí o bebê realmente se move. Que loucura!

A minha equipe médica chegou pra avaliar tudo e o pediatra também com a sua equipe, ficaram ali ao meu lado só esperando a hora da Beatrice.

Eu pedi pra tirarem a barra porque tava me cansando muito.

Duas enfermeiras, uma de cada lado segurando a minha mão, Fernando numa perna e a Nanda na outra. E seguimos em frente, fazendo força, cada vez mais perto da Beatrice nascer.

A cada push eu sentia mais e mais dor. Quando a Beatrice coroou eu pensei que ia me quebrar ao meio. Foi algo surreal. Agora eu sei porque chamam de círculo de fogo. Queima absolutamente tudo enquanto te quebra. Essa era a minha sensação. Eu só queria empurrar e empurrar pra que a dor cessasse.

Eu não tava conseguindo segurar a vontade de empurrar, então a Nanda me instruiu a parar de empurrar por uns segundos porque ia acabar lacerando, então eu esperei. Foi a dor mais absurda que eu já senti na vida. Depois de alguns segundos, ela me disse pra continuar e eu senti a cabeça da bebê sair.

MEU DEUS

MEU DEUS

MEU DEUS

O alívio de sentir ela sair foi muito grande! Eu não ouvia nada e aí a dor me atingiu com tudo de novo! Eu só ouvi a médica falando: "ready for shoulders". Ou seja, agora o corpinho ia sair por inteiro. Entre sair a cabeça e sair o resto do corpo, foi um intervalo de 10 segundos, muito rápido.

Aí ela nasceu de vez. Linda, comprida e sem chorar. Eu me lembro do meu desespero pra saber se ela tava respirando. Aí o quarto se encheu com o chorinho da Beatrice, alto e vibrante. Seguido do meu de alívio.

Comecei a empurrar às 2h da manhã e a Beatrice nasceu às 2:28h. Foi muito rápido. Foi a maior emoção que eu senti na minha vida. Foram 32 horas de trabalho de parto, apenas 8 com anestesia.

Fernando cortou o cordão umbilical depois que ele parou de pulsar.

A Beatrice já foi colocada no meu peito pra mamar, como ela foi prematura e meu parto induzido, eu não tinha leite e nem colostro. A minha enfermeira me ajudou a massagear o seio pra descer o colostro e deu certo.

A Beatrice tomou o colostro e me pediram autorização pra examinarem ela, tinha que ser tudo muito rápido porque como eu fui diabética durante a gravidez, ela nasceria com o açúcar baixo, então precisavam examinar na hora depois do primeiro mama.

Fizeram todos os exames ali mesmo enquanto a médica continuava comigo. Minha placenta nasceu em 50 segundos e me deram alguns remédios pra parar os sangramentos e eu precisei levar um ponto apenas (que eu nunca nem senti, se não tivessem me dito eu não saberia).

Ela nasceu com apgar 9,5 - o que foi maravilhoso pra um bebê prematuro. 2,940kg e 50cm.

E depois de tudo isso, nós ficamos lá por uma hora, sozinhos, nós três. Nos olhando e nos conhecendo. Foi um dos momentos mais lindos da minha vida.

Todo mundo saiu do quarto e nos deixaram sozinhos. Pegamos o telefone e ligamos para os nossos pais primeiro. Pra contar que ela havia nascido e mostrar como ela era linda e pequeninha. Era todo mundo chorando de emoção. Falamos depois com as nossas irmãs e dindas da Beatrice.

Ficamos lá por um bom tempo. A enfermeira voltou, me ajudou a levantar, me deu uma torrada com manteiga e um suco de laranja pra comer. Pedi para tomar um banho e ela me disse que eu poderia tomar quando chegasse no andar de recuperação.

Chegamos no quarto às 5h da manhã e fomos direto para o nosso lado do quarto, que era na janela. Chegamos com o sol nascendo e me deu uma paz muito grande.

O pós-parto vai ser assunto pra outro post. Preciso contar pra vocês como funciona o atendimento familiar e domiciliar aqui em Calgary, o que é incrível.

Queria ressaltar também que todos os profissionais que nos atenderam no hospital Rockyview foram de extrema empatia, gentis e competentes. Com certeza fizeram da nossa experiência um momento muito mais agradável. Respeitaram todas as minhas escolhas e eu me senti no controle de absolutamente tudo.

Queria agradecer do fundo do meu coração à Nanda, minha doula, por ter me ajudado nesse momento tão lindo e importante da minha vida. A doula tem um papel muito importante nesse momento e eu aconselho todas às mulheres a optarem por terem uma nos seus partos.

Aqui nesse post eu contei um pouco sobre a doula aqui em Calgary.

Obrigada por terem lido até aqui, eu sei que ficou muito grande. Eu realmente quis dividir esse momento com o maior número de pessoas, pra que todo mundo saiba o quanto um parto normal pode ser transformador e empoderador.

Não desistam de um parto natural vaginal. Eu acredito que o parto normal te empodera e te transforma como mulher, como mãe. Eu fui muito feliz na minha escolha e pros próximos filhos com certeza essa também vai ser a minha opção.

Já se passaram três meses e a nossa bebê já não é mais uma newborn!


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Por lá eu escrevo várias dicas sobre a cidade de Calgary, AB, Canadá, onde eu moro atualmente e outras dicas gerais e aleatórias sobre o Canadá. E se você gostou desse post, não deixe de compartilhar.

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Até o próximo!