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Expectativa X Realidade da maternidade de uma mãe expatriada - Projeto Mães no Canadá: Outubro 2019

Eu recebo muitas perguntas sobre a maternidade aqui no Canadá. "É difícil?", "Como você consegue fazer tudo isso sozinha?", "Que orgulho de ti, que mãe forte passar por tudo isso sozinha."

Existem muitas coisas que eu gostaria de contar pra vocês sobre esse assunto, as ideias pipocam na minha cabeça sobre como abordar esse tema, parece uma teia e eu preciso entender toda a situação pra me posicionar sempre.

A questão toda não é se forte, ser sozinha. A questão é que a gente não tem opção. Você mora fora do seu país de origem, você não tem família pra te ajudar, mas você tem um filho. Me fala de verdade: qual é a minha opção?

Eu não falo sobre isso de uma maneira que você que está lendo esse texto possa se sentir com pena ou compadecido pela "minha situação". Eu falo abrindo meu coração e sendo o mais sincera possível: que opção eu tenho?

1) voltar pro Brasil; 2) contratar uma babá full time; 3) trazer meus pais pra me ajudar; 4) tentar viver um dia depois do outro, planejando e tentando fazer dar certo;

Eu só consigo imaginar a opção número 4. A gente vive um dia de cada vez e tenta planejar ao máximo, pra que as coisas saiam como a gente deseja. Muitas vezes não é possível, mas se tem uma coisa que eu aprendi nesses 4 anos morando no Canadá e 2 anos e meio como mãe expatriada, é que a gente dá conta sim.

Hoje, eu gostaria de dividir alguns pontos sobre expectativas e realidade da nossa vida aqui, exemplificando com situações que nós vivemos por aqui.

Situação 1: expectativa X realidade da gravidez

Eu sempre pensei: "que delícia deve ser ficar grávida". Ai meus amigos. A minha expectativa era muito alta com relação a gravidez. A única coisa que eu lembro era que queria que passasse rápido. Eu tive hiperemerese gravídica, ou seja: eu vomitava todos os dias por horas, até o dia da Beatrice nascer foi assim.

Nesse post aqui eu contei sobre a descoberta da gravidez e mostrei a reação de alguns amigos próximos e da família.

Eu perdi 16kg no início da gravidez e ganhei apenas 11kg durante a gravidez. Mas eu fiquei muito inchada...

Tudo doía, tudo dava falta de ar, tudo me cansava e me entediava. Eu me sentia bonita? Claro que sim! Mas quando via meu nariz na frente do espelho eu só chorava haha

Minha irmã veio pra cá me visitar grávida - ela descobriu a gravidez dela dois dias antes de embarcar... imaginem a cena: eu que pensei que seria incrível ter ela aqui comigo grávida também... a gente vivia enjoada, de mau humor, rindo da nossa própria desgraça.

As coisas não foram exatamente como eu queria ou imaginava que seria. Beatrice resolveu não esperar e decidiu vir ao mundo pouco antes de eu completar 36 semanas.

Situação 2: expectativa X realidade do parto

Eu tive 32 horas de trabalho de parto, 22 horas de trabalho de parto ativo - com dilatação de 6cm e contrações a cada 40 segundos. Com anestesia apenas nas últimas 8 horas porque eu já estava sendo desumana comigo mesma.

Na minha cabeça - em nenhum momento eu cogitei uma cesárea. Eu não queria isso pra mim, mesmo com pré-eclâmpsia e diabetes gestacional. Eu sequer pensei nisso durante o meu parto. Eu tinha uma certeza tão grande e absoluta dentro de mim que a Beatrice nasceria de parto normal e foi exatamente assim que aconteceu.

Nesse post aqui eu relatei o meu trabalho de parto aqui em Calgary, com informações bem claras, cheio de detalhes.

Eu posso dizer que a minha expectativa era super alta com relação ao meu parto, ao hospital. A minha realidade foi ainda melhor. Meu parto foi incrível e foi o que eu sempre sonhei. Mas eu sei que não é assim pra todas as mães que moram fora, sei de muitas histórias de pessoas que tiveram experiências horríveis aqui em Calgary com o sistema de saúde. Comigo não foi assim e eu agradeço muito por isso.

Situação 3: expectativa X realidade do pós-parto

Aqui as minhas expectativas eram extremamente altas. Mas com um porém - minha mãe não estava aqui comigo nesse momento e isso me dói até hoje. Eu não pude ter uma das pessoas que eu mais amo no mundo aqui pra me ajudar. Beatrice nasceu 1 mês antes do previsto e meus pais só chegaram quando ela completou 2 meses.

Foi uma das coisas mais difíceis que eu já enfrentei na vida: o temido puerpério. A depressão pós parto que aparece de muitas maneiras diferentes em cada mulher, eu não sabia o que fazer.

Eu achei que chegaria em casa e seguiria com a mesma rotina, mesma vida. Eu me lembro de chegar e começar a chorar de desespero. Eu não sabia o que fazer com a Beatrice, não sabia onde ela podia ficar - no carseat, no berço, no meu colo. Me lembro de olhar pro Fernando e perguntar: "E agora o que a gente faz?".

Aqui nesse post eu contei um pouco sobre os serviços de pós parto que são oferecidos aqui em Calgary, Alberta.

A minha realidade foi completamente diferente do que eu imaginei naquele momento. Eu me sentia sozinha, extremamente vazia e abandonada. Aquela criança não fazia sentido na minha vida ali, fora da minha barriga. Eu só queria o colo da minha mãe pra chorar até que tudo isso passasse.

Que opção eu tinha? Nenhuma. Enxuga a lágrima porque o bebê precisa comer e o Fernando não tinha leite pra ela. Segue o baile, sem o colo da mãe e tendo que dar o colo pra filha.

Situação 4: expectativa X realidade da amamentação

Esse foi outro soco no estômago - achei que ia sair da maternidade amamentando, cheia de leite, com o peito doendo. Nada disso aconteceu. Eu fui diabética, então a produção de leite foi afetada, meu corpo não estava pronto pra parir, Beatrice era muito pequena e não tinha força pra sugar.

Os meus piores pesadelos. Consegui amamentar até os 2 meses. E deu. Me senti horrível, uma mãe cheia de culpa e amarga por isso. Eu usava a bomba de tirar leite 6x ao dia, mas não é a mesma coisa que o bebê sugando, a bomba ajuda até certo ponto a produção de leite.

Amamentação apenas até o segundo mês de vida

Meu leite começou a secar e eu tirava em média 9ml por dia. NOVE. Que desespero. Que frustração. Eu, que queria amamentação exclusiva, que queria aquele momento só nosso. Tive que descobrir outras maneiras de ter tudo isso, mas com fórmula. Foi uma das piores coisas na minha opinião, não consegui amamentar o tempo que gostaria.

Situação 5: expectativa X realidade do filho doente

Acho que esse assunto é o que as pessoas mais me perguntam: "E quando tá doente, como vocês fazem?". Eu sento e choro primeiro.

Aí a lucidez vem e a gente tenta planejar e ver o que vai acontecer. Nós estamos sozinhos aqui, sem a família pra poder ajudar quando a gente mais precisa. Mas o segredo é se cercar de gente querida, que é a sua rede de apoio aqui.

Nem sempre todo mundo pode ajudar, mas na maioria das vezes a gente dá um jeito. Aqui é uma situação na qual a realidade supera as minhas expectativas. Eu achei que seria muito pior, mas eu não conheço uma realidade onde eu tenho ajuda da minha mãe ou da minha sogra pra cuidar da Beatrice quando eu preciso.

Mas acho que estamos indo muito bem! O trabalho do Fernando é bem flexível e ele pode trabalhar de casa quando precisa. No meu trabalho antigo, era bem difícil. Aqui tudo é regido por contrato de trabalho, tu não tem a opção de pegar um atestado médico e ficar com a criança em casa - e receber seu salário mesmo assim.

Beatrice após uma convulsão - em casa com o papai e a mamãe 

Isso pra mim é o mais complicado. No meu trabalho atual eles tem sido muito legais e compreensivos com esse tipo de situação (escrevo esse post hoje com uma criança doente em casa após uma convulsão).

Mas a verdade é que eu achei que seria muito mais difícil do que realmente é. A verdade é que a gente se adapta a todas as situações que nos são apresentadas. A gente tem uma capacidade incrível de se adaptar.

A gente se vira nos 30, dá um jeito, um amigo ajuda daqui e outro de lá. E assim vamos construindo nossa rede de apoio e sobrevivendo todos os dias. É difícil? Eu queria a minha mãe aqui pra ajudar? Com certeza. Mas eu me sinto extremamente forte sim, extremamente capaz e feliz de conseguir fazer tudo isso sem a ajuda da família que ficou lá no Brasil só acompanhando pelo facetime.

Conclusão: Crie uma mula manca, mas não crie expectativas. A realidade se apresenta de maneiras desafiadoras muitas vezes, mas você não tem muita opção querida leitora/mamãe. Segue o baile. Desabafa com as amigas, com a terapeuta, encontra um tempo pra si mesma, sai sozinha, vai ao cinema, se esconde no banheiro pra chorar e mexer no celular SOZINHA. Pede ajuda, pede socorro. Você não está sozinha!

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O projeto Mães no Canadá teve início em 2018 e acontece todo o dia 20 de cada mês. Somos várias mães brasileiras falando sobre maternidade e a nossa visão sobre ela em diferentes cidades do Canadá.

Se você ainda não viu os outros posts do projeto, você consegue encontrar todos aqui. Tem muito conteúdo legal, divertido e informativo.

Vocês ainda podem acompanhar outras abordagens feitas pelas outras mamães que fazem parte desse projeto junto comigo:

Gaby (Toronto, ON) - Gaby no Canadá
Carol (Vancouver, BC) - Fala Maluca
Beatriz (Vancouver, BC) - Biba Cria
Livi (Toronto, ON) - Baianos no Pólo Norte
Alessandra Schneider (Bathurst, NB) - Canadiando
Amanda (Richmond, BC) - Viva Canada
Dani (Toronto, ON) - Vidal Norte

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Lá vocês podem encontrar muitas dicas sobre a cidade de Calgary, lifestyle e maternidade. E claro, através dos Stories do Instagram acompanhar o meu dia a dia na cidade, com muita informação útil, curiosidades e autenticidade.

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Até o próximo!

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